Ah, a melhor hora do dia. O melhor momento. Não é quando o sol se põe, mas também não é exatamente quando ele nasce. É por volta das 5h30~6h da manhã do horário normal, nada de horário de verão. São aqueles dez minutos em que o orvalho da madrugada está no ar. Era quando eu estava saindo de casa para ir à escola. Era quando eu encontrava paz. Decidia naquele momento como estava o meu estado de espírito. O dia que estava por vir se resumia em como meu eu interior reagia à respiração funda que ia além… Eu sabia se ia ser bom ou ruim.
É aquele momento em que não está escuro, mas que também não tem sol no rosto. O laranja está ao fundo, no horizonte que não vemos,coberto pelos prédios. São aquelas nuves que parecem costelas desenhadas, meio dispersadas, como se alguém as tivesse soprado.
O silêncio não é completo. Os carros são poucos e as pessoas não são barulhentas, nem fedidas. São Paulo fica perfeita nesse horário, nesses eternos dez minutos. E o meu espírito agradece.
A melhor hora do dia
Comofaz?
Minha mãe costuma dizer que nós, pessoas mais novas, costumamos viver tudo achando que é aquilo e pronto. Quando não deu, significa que nunca mais vai dar; quando se sente dor, acredita-se então que é a maior dor já sentida; quando se sofre, ninguém sofre como nós e assim por diante. Talvez seja por tanto sentir, por se jogar tanto de corpo e alma que acabamos vivendo mais intensamente que os mais velhos… e acabamos por nos dilacerar mais também. Isso é inegável.
Essa intensidade é tanta que tudo pode beirar à injustiça. No meu mundo, dentro da minha cabeça, quem estuda mais deveria passar no vestibular. Mas não. O curso do fulano não é tão concorrido e, por isso, ele não precisa estudar tanto quanto o siclano precisa. O siclano se mata, fica sem vida, mas quem passa é o fulano. Ah, a maldita sorte que o siclano não teve naquela questão em que chutou A e era B ou, pior, chutou A, era A mas depois, na hora de passar pro gabarito colocou B.
É injusto. Ainda preciso viver muito pra tirar da minha cabeça que isso não é injusto.
O siclano é tão fodido que, além de chutar errado, ainda escolhe um dos cursos mais concorridos. Por que não foi escolher geografia? (Sem menosprezo aos geógrafos, de fato).
Mas o pior: a siclana tem um namorado que prestou duas, em uma entrou e na outra não. O problema: o namorado passou na que fica a, aproximadamente, quinhentos quilometros de distância. Comofaz?
Chorei a tarde inteira.
Cortázar e as diferentes realidades
- Que estranho! – exclamou Ronald. – De qualquer forma, seria estúpido negar uma realidade, embora sem saber o que é. O eixo do sobe e desce, digamos. Como é possível que esse eixo ainda não tenha servido para compreender o que acontece nas extremidades? Desde o homem de Neanderthal…
- Você está usando palavras – comentou Oliveira, apoiando-se melhor em Etienne. – Todos vocês gostam muito que alguém tire as palavras do armário e as faça passar pelo quarto. Realidade, homem de Neanderthal, vejam como brincam, como entram pelos nossos ouvidos e se lançam pelos tobogãs!
- É verdade – disse roucamente Etienne. – É por isso que prefiro os meus pigmentos, fico mais seguro.
- Seguro de quê?
- Do seu efeito.
- Do seu efeito sobre você, está bem, mas não sobre a porteira de Ronald. As suas cores não são mais seguras do que as minhas palavras, meu velho.
- Mas minhas cores, pelo menos, não pretendem explicar nada.
- E você se conforma com o fato de não existir uma explicação?
- Não – respondeu Etienne -, mas ao mesmo tempo vou fazendo coisas que me tiram um pouco o gosto ruim do vazio. E essa é, no fundo, a melhor definição do homo sapiens.
- Não é uma definição, mas um consolo – disse Gregorovious, suspirando. – Na realidade, somos como as comédias quando se chega ao teatro no segundo ato. É tudo muito bonito, mas não compreendemos nada. Os atores falam e atuam não se sabe por quê, com que finalidade. Projetamos neles nossa própria ignorância; e eles nos aparecem como uns loucos que entram e saem muito convencidos. Ademais, isto já foi dito por Shakespeare; e, se não disse, tinha obrigação de dizer.
- Eu acho que ele disse – falou a Maga.
- Sim, disse mesmo – confirmou Babs.
(…)
- Vamos, deixem a poesia para outra ocasião. Também acho que não podemos confiar nas palavras, mas as palavras, na verdade, vêm depois de outra coisa, do fato de estarmos aqui, esta noite, sentados em volta de uma lampadazinha. (…)
- Não precisamos de nenhuma palavra para sentir, para saber que estou aqui – insistiu Ronald. – É a isso que chamo de realidade. Embora não seja mais do que isso.
- Perfeito – concordou Oliveira. – Só que esta realidade não é nenhuma garantia nem para você nem para ninguém, a não ser que a transforme em conceito, e depois em convenção, em esquema útil. O simples fato de você estar à minha esquerda e eu à sua direita já faz da realidade pelo menos duas realidades; e note que não quero ir ao fundo e lembrar que você e eu somos dois entes absolutamente sem comunicação entre si, a não ser por meio dos sentidos e da palavra, coisas de que devemos desconfiar se formos gente séria.
- Estamos aqui os dois – insistiu Ronald. – À direita ou à esquerda, pouco importa. Ambos vemos Babs, todos escutam o que estou dizendo.
- Mas esses exemplos são para meninos de calça curta, meu filho – lamentou-se Gregorovious. – Horacio tem razão, você já não pode aceitar assim sem mais nem menos aquilo que pensa ser a realidade. O máximo que pode fazer é dizer “eu sou”; isso não se pode negar sem evidente escândalo. O que falta é o ergo; e o que vem depois do ergo, é claro.
- Não transforme as coisas numa questão de escolhas – disse Oliveira. – Continuemos numa conversa de amadores, já que é isso que somos. Fiquemos naquilo que Ronald chama comovedoramente de realidade, e que pensa ser apenas uma. Você ainda pensa que é apenas uma, Ronald?
- Sim, embora conceda que a minha maneira de sentir ou entender essa realidade é diferente da de Babs e que a realidade de Babs difere da de Ossip, e assim sucessivamente. Todavida, isso é como as muitas opiniões diferentes que existem sobre a Gioconda ou sobre a salada de alface. A realidade está aí e nós estamos nela, compreendendo-a à nossa maneira, mas dentro dela.
- A única coisa que conta é isso de a entendermos à nossa maneira – retorquiu Oliveira. – Você pensa que existe uma realidade postulável pelo fato de você e eu estarmos falando neste quarto e nesta noite, e também porque você e eu sabemos que dentro de mais ou menos uma hora vai acontecer aqui determinada coisa. Isto tudo dá a você uma grande segurança ontológica, acredito; você se sente muito seguro de si, bem plantado em si mesmo e em tudo o que rodeia. Todavia, se ao mesmo tempo você pudesse assistir a essa realidade do meu ponto de vista, ou do de Babs, se você ganhasse uma ubiquidade, entende, e pudesse estar nesse mesmo instante, neste mesmo quarto, na posição em que eu me encongtro e com tudo o que sou e o que eu tenho sido, e também com tudo o que é e o que temsido Babs, talvez acabasse por entender que seu egocentrismo barato não lhe fornece qualquer realidade válida. Só lhe dá uma crença fundada no terror, uma necessidade de afirmar aquilo que o rodeia para não cair dentro do funil e sair pelo outro lado, ninguém sabe onde.
- Somos muito diferentes – disse Ronald. – Sei perfeitamente; mas a verdade é que nos encontramos em alguns pontos exteriores a nós mesmos. Você e eu, por exemplo, estamos olhando para este abajur. É bem possível que não vejamos a mesma coisa, mas também não podemos estar certos de que não vemos a mesma coisa. Há um abajur aí, que diabo!O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar – trechos do capítulo 28
E pra você? Qual é a sua realidade?
A enxaqueca e o careca
E lá fui eu atrás do neurologista, após seis anos, queixar-me novamente da minha enxaqueca precoce.
Descobri que tinha enxaqueca com doze anos de idade, consequência de uma alimentação regada de suco em pó e chocolate. Alterei a dieta e até que deu uma melhorada. Até eu entrar no ensino médio terceiro colegial. Escola pra lá, curso técnico pra cá e cursinho pra ali tudo acabou voltando e pior, acompanhada de uma vista embaçada. Ganhei uma receita de óculos para astigmatismo. Na esperança de que a dor ia me abandonar, passei a ser quatro olhos, super numa boa. Mas quem disse?
Marquei a dita da consulta com um tal de Dr. Benedito. Quando mamis disse esse nome cismei. Não é por nada, mas pode perceber, médicos velhos, em geral, não são nada atenciosos, ainda mais quando você é uma garota de dezoito anos… Eles não te levam muito a sério.
Dito e feito, meu sexto sentido acertou mais uma vez! Entrei na sala, sentei na frente do careca gorducho, esperando a pergunta.
- Então?
Aí já viu. Desencadeei a falar igual uma gralha, explicando que já tinha ido numa médica que tinha diagnosticado enxaqueca devido ao que comia, disse que passei a usar óculos, etc, etc, relatei todo o drama.
O bonito pegou a caneta chique dele, o bloco de folhas para as receitas e me receitou uns comprimidos. Nesse meio tempo, o bonito ainda atendeu o celular.
Foi a consulta mais rápida da minha vida. E a queo médico menos falou.
Entretenimento virtual
Com as férias aí e a chuva deixando São Paulo em estado de atenção diariamente, a tag “pra domingos chuvosos” acabou se tornando rotineira. Os livros que deveriam estar sendo lidos estão sendo trocados por um passatempo mais light.
O Facebook anda sendo meu companheiro no ao longo dos dias com jogos que devem ser acompanhados diariamente, pois você evolui de acordo com o tempo que a plantação cresce (se for o Farmville), que o prato fica pronto (quando se trata do Cafeworld), quando os peixes crescem e são alimentados (no caso do Fishville) e assim por diante. Se não cuidar do seu empreendimento, as folhas morrem, os pratos apodrecem e os peixes passam fome. Cada joguinho tem uma proposta diferente. Seus amigos do Facebook podem se tornar seus vizinhos e você pode ajudá-los. O jogo é bobo, mas como disse uma amiga, entretem, e afinal, é essa a proposta.
Julie & Julia
A chamada de Julie & Julia não é daquelas que te deixa curiosíssimo
provavelmente porque a história é sobre uma mulher que cozinha, basicamente falando. Entretanto, quando olhamos mais a fundo vemos que não é só isso. Julia Child é a grande responsável por termos tantas Anas Marias Bragas diariamente em nossa televisão, seja no horário que for. Ela adaptou aquela culinária francesa super chique às nossas mesas, provando que todas as mulheres poderiam fazer o prato que lhe desse na cabeça. Julie Powell, por sua vez, é uma típica americana que busca algum propósito na vida… Então, começa a escrever um blog, com uma meta: 536 receitas em 365 dias.
O mais legal de tudo: procurar o blog da Julie depois de assistir o filme e constatar que, de fato, está tudo lá, do jeito mostrado no filme. Passear pelos links e ver as receitas sendo descritas como mostraram as imagens é, no mínimo, curioso. E quem sabe tentar fazer um Boeuf Bourguignon…
O filme é uma ótima sessão da tarde. Acho válido. E ah, se você não estiver com um dinheirinho sobrando depois do cinema, vá de estômago cheio, caso contrário, vai sair salivando em busca de algum petisco francês.
Como é que se diz eu te amo
Sempre buscamos marcas registradas só nossas, coisinhas que somente nós fazemos e, quando menos esperamos, acabamos desenvolvendo, inesperadamente, uma espécie de tradição. Foi assim que eu e ele criamos nossa brincadeira de declamar poemas discretamente um para o outro ao entrar em uma livraria. A ideia é abrir um livro de poemas/sonetos/etc e ler o que apareceu. São três chances porque o legal é que o texto não seja muito grande. Se nenhum calhar, o livro é fechado. Se for declamado, eu posto aqui, como já postei. A diferença é que agora virou categoria do blog.
Do sábado, na Livraria Cultura:
Hinterhof
James Fenton
Livro: Penguin’s Poems For Love
Editora: Penguin Classics
Autora: Laura BarberStay near to me and I’ll stay near to you
As near as you are dear to me will do,
Near as the rainbow to the rain,
The west wind to the windowpane,
As fire to the hearth, as dawn to dew.Stay true to me and I’ll stay true to you -
As true as you are new to me will do,
New as the rainbow in the spray,
Utterly new in every way,
New in the way that what you say is true.Stay near to me, stay true to me. I’ll stay
As near, as true to you as heart could pray.
Heart never hoped that one might be
Half of the things you are to me
The dawn, the fire, the rainbow and the day.
Ahhh Casuarina…
Eeeeta sozinho bom…
“Sou de sabor fel na esperança
Sou de sorrir e desdenhar
Não adianta nem tentar”
“E agora em homenagem ao meu fiiiim
Não falem dessa mulher perto de miiiim…”
A volta de quem não foi
Quando digo que não fui é a mais pura verdade. Chegava até esta página, encarava o espaço em branco e fazia meia volta bem larga, como as curvas que andei fazendo esses dias na praia ao andar de bicicleta, tudo para evitar a queda iminente em uma curva muito fechada.
A verdade é que era muita coisa pra encarar e eu preferi deixar pra depois, mas acho que já está na hora né. Mesmo porque, o (mundo do) blog faz falta.
Ano passado combinei com a minha mãe de que só iria prestar USP pois, como não estava atrasada, poderia muito bem fazer mais um ano de cursinho caso não passasse e, assim sendo, valeria a pena tentar novamente uma faculdade pública. A questão é que fui me convencendo com a possibilidade de realmente passar na Fuvest… e acabei dando com a cara na parede. Foram seis pontos fdps que me fizeram chorar igual a um bebê. E olha que isso não é exagero. Chorei mesmo, arreguei, pedi pinico. Enfim, não deu. E lá vou eu novamente pro Objetivo pra mais uma batalha, afinal, vamos e convenhamos, a Fuvest é uma batalha psicológica e física.
Devido a isso, estou de férias até o carnaval… Então é só folia e alegria.
De lá pra cá, eu me formei:
Ganhei uma festa surpresa de aniversário do namo:
Cortei o cabelo:
E fui pra praia:
Cheguei ontem e estou descascando até o talo. Mando notícias em breve.
O que Graciliano Ramos escreveu de nós
“Como não se entendessem, sinha Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça. Ressentido, Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas, caros e inúteis. Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. Sinha Vitória ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de Fabiano entristecera-a muito.
(…)
A referência aos sapatos abrira-lhe uma ferida – e a viagem reaparecera.
(…)
Para que Fabiano fora despertar-lhe aquela recordação?”Vidas Secas – Graciliano Ramos (cap. Sinha Vitória)
É mais ou menos por esse caminho.





