Falar sobre a figura paterna nunca foi o meu forte… E ser a tal da figura nunca foi o forte do meu paizão. Essa fraqueza dele muito tem a ver com as diversas formas que eu já o enxerguei. Já gritei aos quatro cantos, quando era pequena, que não tinha pai e, até mesmo antes dessa minha fase, lembro-me de ter desenhado a minha mãe, meu pai e minhas duas avós, cada um separado em um quadrinho e em cima do dele ter escrito: “O pior pai do mundo”.
A fase do ódio passou e fui me dando conta de que tudo era apenas um reflexo da falta que ele fazia na minha vida. Até os sete anos eu o via sempre pois, enquanto minha mãe trabalhava, eu ficava na casa de minha avó paterna e como ele era solteiro, morava lá. Não que essa presença significasse muito, uma vez que eu me lembro de raros momentos em que ele não estava me dando bronca ou falando que tudo na vida era estudar. Houve até uma vez em que ele pegou um catchup, fingiu que era uma pirâmide e falou que mais da metade dela era composta pelo “estudar” e que eu só iria atingir a tampa se completasse essa base.
Então, em 1999, ele se casou novamente e foi morar no extremo oposto de São Paulo e praticamente sumiu da minha vida. Minha irmã, filha dele com essa nova mulher, nasceu um ano depois e ela passou a ser a ligação mais forte entre nós dois só que, assim como toda ligação distante, o tempo foi nos dispersando e os mundos deixaram de ser paralelos para sempre de diferentes galáxias. Minha mãe casou em 2004 e aí foi a vez da minha vida mudar radicalmente.
Eu fui crescendo, deixando de visitá-lo, a vida dele foi ficando mais difícil. A situação financeira, na minha visão, o envergonha e ele se sente incapaz de participar da minha vida e hoje, quando liguei, ele nem sabia quem era.
Um dos pontos curiosos dessa ligação foi o meu nervosismo. Sabe aquela tagarelice de quando você não sabe o que falar? E, de repente, ele cortou o assunto. Agradeceu pelo telefonema e desligou. Até o ano que vem, no próximo segundo domingo de agosto, pai.
Arquivo para família
Do pai que minha mãe foi
Um pouco de todas as situações e sensações de um dia como ontem
Hoje, quando reconstituo a minha imagem de criança, lembro-me de ser a menina da escola que, além de mandar em todos, queria ajudar os fracos e oprimidos. Esse desejo, aparentemente nato já que provém da minha infância, transformou-se no sonho de constituir uma ONG que ajude a quem precisa e os torne aptos a batalharem e conseguirem, por conta própria, aquilo que anseiam. Esse sonho há de se realizar.
Entretanto, ainda que totalmente impotente a respeito dessas pessoas necessitadas, não há situação pior para alguém que quer salvar o mundo – porque é isso que eu quero, como diria meu pai – do que a impotência diante da morte.
Provavelmente não é a morte em si, uma vez que minhas crenças permitem que eu me valha do pensamento de que esta vida vivida aqui não é a única… Mas sim, são todos os sentimentois causados pelo falecimento de alguém.
Caminhar por entre jazigos tradicionais remete-me à histórias imensas, trilhadas e formadas por todos aqueles que compões os túmulos e por aqueles responsávels pelos epitáfios.
A vida, portanto, só se faz válida quando há o cumprimento de uma missão e eu acredito que esta, para todos os seres humanos, é a de acrescentar algo em um mundo tão repleto de maravilhas.
Ao mesmo tempo que a seriedade toma conta das minhas feições na maior parte do tempo, visualizo que tudo só pode parar de caminhar com largos passos para trás quando todos acreditarem que há um mundo melhor. E que não somente há pelo existir, há pelo o que fazemos, acreditamos e resolvemos.
As conversas entre um corredor e outro, ocorridas enquanto os trâmites funerários eram processados, mostraram-me pessoas desacreditadas perante uma visão de um mundo falido. E a razão dessa descrença não leva a morte como causa, mas sim a pura falta de insistência em uma humanidade única, i mean, em um todo humano.
Perder a fé causa tanta dor quanto a falta de explicação do “morrer”. É, de fato, acreditar que só há essa vida e ponto final. E o mundo não pode ser assim.
Filho de peixe, peixinho é

Depois de algumas discussões e um ou outro xingamento, me dei conta de como estou prestes a me tornar aquilo que a minha mãe quis ser e não conseguiu – famosa frustração.
Ouvindo: Adele – Hometown Glory
Que saco!
Ah, eu sei que família é fundamental, mas tem hora que eles são um saco, incrível.
Só precisava registrar isso aqui.