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Cortázar e as diferentes realidades

- Que estranho! – exclamou Ronald. – De qualquer forma, seria estúpido negar uma realidade, embora sem saber o que é. O eixo do sobe e desce, digamos. Como é possível que esse eixo ainda não tenha servido para compreender o que acontece nas extremidades? Desde o homem de Neanderthal…
- Você está usando palavras – comentou Oliveira, apoiando-se melhor em Etienne. – Todos vocês gostam muito que alguém tire as palavras do armário e as faça passar pelo quarto. Realidade, homem de Neanderthal, vejam como brincam, como entram pelos nossos ouvidos e se lançam pelos tobogãs!
- É verdade – disse roucamente Etienne. – É por isso que prefiro os meus pigmentos, fico mais seguro.
- Seguro de quê?
- Do seu efeito.
- Do seu efeito sobre você, está bem, mas não sobre a porteira de Ronald. As suas cores não são mais seguras do que as minhas palavras, meu velho.
- Mas minhas cores, pelo menos, não pretendem explicar nada.
- E você se conforma com o fato de não existir uma explicação?
- Não – respondeu Etienne -, mas ao mesmo tempo vou fazendo coisas que me tiram um pouco o gosto ruim do vazio. E essa é, no fundo, a melhor definição do homo sapiens.
- Não é uma definição, mas um consolo – disse Gregorovious, suspirando. – Na realidade, somos como as comédias quando se chega ao teatro no segundo ato. É tudo muito bonito, mas não compreendemos nada. Os atores falam e atuam não se sabe por quê, com que finalidade. Projetamos neles nossa própria ignorância; e eles nos aparecem como uns loucos que entram e saem muito convencidos. Ademais, isto já foi dito por Shakespeare; e, se não disse, tinha obrigação de dizer.
- Eu acho que ele disse – falou a Maga.
- Sim, disse mesmo – confirmou Babs.
(…)
- Vamos, deixem a poesia para outra ocasião. Também acho que não podemos confiar nas palavras, mas as palavras, na verdade, vêm depois de outra coisa, do fato de estarmos aqui, esta noite, sentados em volta de uma lampadazinha. (…)
- Não precisamos de nenhuma palavra para sentir, para saber que estou aqui – insistiu Ronald. – É a isso que chamo de realidade. Embora não seja mais do que isso.
- Perfeito – concordou Oliveira. – Só que esta realidade não é nenhuma garantia nem para você nem para ninguém, a não ser que a transforme em conceito, e depois em convenção, em esquema útil. O simples fato de você estar à minha esquerda e eu à sua direita já faz da realidade pelo menos duas realidades; e note que não quero ir ao fundo e lembrar que você e eu somos dois entes absolutamente sem comunicação entre si, a não ser por meio dos sentidos e da palavra, coisas de que devemos desconfiar se formos gente séria.
- Estamos aqui os dois – insistiu Ronald. – À direita ou à esquerda, pouco importa. Ambos vemos Babs, todos escutam o que estou dizendo.
- Mas esses exemplos são para meninos de calça curta, meu filho – lamentou-se Gregorovious. – Horacio tem razão, você já não pode aceitar assim sem mais nem menos aquilo que pensa ser a realidade. O máximo que pode fazer é dizer “eu sou”; isso não se pode negar sem evidente escândalo. O que falta é o ergo; e o que vem depois do ergo, é claro.
- Não transforme as coisas numa questão de escolhas – disse Oliveira. – Continuemos numa conversa de amadores, já que é isso que somos. Fiquemos naquilo que Ronald chama comovedoramente de realidade, e que pensa ser apenas uma. Você ainda pensa que é apenas uma, Ronald?
- Sim, embora conceda que a minha maneira de sentir ou entender essa realidade é diferente da de Babs e que a realidade de Babs difere da de Ossip, e assim sucessivamente. Todavida, isso é como as muitas opiniões diferentes que existem sobre a Gioconda ou sobre a salada de alface. A realidade está aí e nós estamos nela, compreendendo-a à nossa maneira, mas dentro dela.
- A única coisa que conta é isso de a entendermos à nossa maneira – retorquiu Oliveira. – Você pensa que existe uma realidade postulável pelo fato de você e eu estarmos falando neste quarto e nesta noite, e também porque você e eu sabemos que dentro de mais ou menos uma hora vai acontecer aqui determinada coisa. Isto tudo dá a você uma grande segurança ontológica, acredito; você se sente muito seguro de si, bem plantado em si mesmo e em tudo o que rodeia. Todavia, se ao mesmo tempo você pudesse assistir a essa realidade do meu ponto de vista, ou do de Babs, se você ganhasse uma ubiquidade, entende, e pudesse estar nesse mesmo instante, neste mesmo quarto, na posição em que eu me encongtro e com tudo o que sou e o que eu tenho sido, e também com tudo o que é e o que temsido Babs, talvez acabasse por entender que seu egocentrismo barato não lhe fornece qualquer realidade válida. Só lhe dá uma crença fundada no terror, uma necessidade de afirmar aquilo que o rodeia para não cair dentro do funil e sair pelo outro lado, ninguém sabe onde.
- Somos muito diferentes – disse Ronald. – Sei perfeitamente; mas a verdade é que nos encontramos em alguns pontos exteriores a nós mesmos. Você e eu, por exemplo, estamos olhando para este abajur. É bem possível que não vejamos a mesma coisa, mas também não podemos estar certos de que não vemos a mesma coisa. Há um abajur aí, que diabo!

O Jogo da Amarelinha, Julio Cortázar – trechos do capítulo 28

E pra você? Qual é a sua realidade?

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O que Graciliano Ramos escreveu de nós

“Como não se entendessem, sinha Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça. Ressentido, Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas, caros e inúteis. Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. Sinha Vitória ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo. Devia ser ridícula, mas a opinião de Fabiano entristecera-a muito.
(…)
A referência aos sapatos abrira-lhe uma ferida – e a viagem reaparecera.
(…)
Para que Fabiano fora despertar-lhe aquela recordação?”

Vidas Secas – Graciliano Ramos (cap. Sinha Vitória)

É mais ou menos por esse caminho.

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Meme de Livros

Meme gracinha que a Anna passou:

Livro de Infância: “Marcelo Marmelo Martelo” – Ruth Rocha; “A Letra N e o Nascimento da Noite” – Ziraldo

Personagem que queria ser: A Sofia, do Mundo de Sofia – se falar o porque, falo o fim do livro hehe

Primeiro livro enorme que lembra de ter lido: “O Mundo de Sofia” – Jostein Gaarder

Filme que ficou melhor do que o livro: filme O Diário de uma Paixão, cujo livro é O Caderno de Noah por Nicholas Sparks

Livro que te fez sonhar acordada (o): “Cem Anos de Solidão” – Gabriel García Marquez; “Os Sofrimentos do Jovem Werther” – Goethe

Livro que te fez chorar: “Os Miseráveis” – Victor Hugo; “O Pequeno Príncipe” – Antoine De Saint-Exupery; “A Menina Que Roubava Livros” – Markus Zusak; “Capitães da Areia” – Jorge Amado

Livro que te fez rir: “A Segunda Vez Que Te Conheci” – Marcelo Rubens Paiva

Livro que mudou a sua vida: “1984” – George Orwell; “As Cinco Pessoas Que Você Encontra no Céu” – Mitch Albom (gente, não é auto-ajuda, pelo amor de Deus! Hahaha)

Livro que te causou dor: “Ensaio Sobre a Cegueira” – Saramago; “Eu Sou o Mensageiro” – Markus Zusak

Livro de cabeceira: “Lolita” – Vladimir Nabokov; “Dom Casmurro” – Machado de Assis e a Bíblia

Livro comercialzão: “Harry Potter” – J. K. Rowling; “Anjos e Demônios” – Dan Brown

Querido escritor: Victor Hugo, Machado de Assis

Sente vergonha por não ter lido: “A Divina Comédia” – Dante Alighieri

Não suporta: Crepúsculo e companhia, juro que tentei hein

Para os apaixonados: “Amor de Perdição” – Camilo Castelo Branco; “A Dama das Camélias” – Alexandre Dumas Filho

Livro sensual: “79 Park Avenue” – Harold Robbins

Para quando quiser ficar feliz: “O Diário de Bridget Jones” – Helen Fielding

Para quando faltar esperança: “A Insustentável Leveza do Ser” – Milan Kundera

Livro que ganhou e nunca leu e nem vai ler: “Resistência – A História de uma Mulher que Desafiou Hitler” – Agnes Humbert (só não vou ler porque tive a infelicidade de trocar pelo “Vendedor de Sonhos” do Augusto Cury)

Para quando for preciso paciência: “Madame Bovary” – Gustave Flaubert

Livro que comprou e nunca leu: “Cinco Minutos” – José de Alencar

Biografia: “A Origem dos Meus Sonhos” – Barack Obama

Para garotas: Meg Cabot forever

Difícil: “Humano Demasiado Humano” – Nietzsche

Para quem gosta de escrever: Machado de Assis

Leitura de teatro: “O Auto da Barca do Inferno” – Gil Vicente (pro vestiba né galera)

Conto gostoso de ler: “A Cartomante” – Machado de Assis

Não conseguiu terminar: “O Vendedor de Sonhos” – Augusto Cury; “As Brumas de Avalon” – Marion Zimmer

Está na fila: “O Estrangeiro” – Albert Camus; “Os Irmãos Karamazov” – Dostoievski

Livro que daria de presente: Paulo Coelho pra mamãe, sempre; “O Apanhador no Campo de Centeio” – J. D. Salinger

Pérola encontrada nos sebos: “Lolita” – Vladmir Nabokov

O que está lendo agora: “Crime e Castigo” – Dostoievski

Fico deprimida com essas coisas porque percebo que tenho tanta coisa a ler… E tão pouco tempo.

Passo para Lu, Thaís, João, Irena e pra Bonnie. Moon querida, não passei porque já foi passado pra ti (:
E acho que no “Para Garotas” o João deve mudar para “Para Garotos”… heh.

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A maravilha do site Estante Virtual

Os vazios dos meus dias, na maioria das vezes, são preenchidos por diversos gêneros de leitura: blogs, livros, revistas, jornais, etc. A leitura dos blogs nos permite um contato bem mais direto com o autor e tenho a leve impressão de que, na maioria dos casos, os blogueiros são leitores (assíduos, muitas vezes). E nós, blogueiros espertos como somos adoramos um sebo que nos proporcione troca de livros sem que tenhamos que despender de muitas verdinhas…
O site Estante Virtual reúne sebos de todo o Brasil e cataloga os livros que eles vendem, colocando informações como preço e o estado físico do livro. Creio que muita gente já o conhecia. Se não, dá um clique.
Mas mais interessante que isso, acabo de descobrir que eles estão com uma espécie de programa de troca. Em uma lista de sebos – que atingem os quatro cantos do país, creio eu – você pode trocar o seu livro semi-usado por um vale compras. Tá, eu sei que isso já existe em todos os sebos comuns, mas o interessante é o valor que seu livro possui: 25% do valor cobrado em livrarias convencionais. Bem melhor do que aquele um real que o sebo da esquina da minha casa me dá. Caso não haja nenhum livro do seu interesse no acervo daquele sebo em que está realizando a troca, seu vale compra passa a possuir 20% do valor do seu livro em livrarias e você pode utilizá-lo no próprio site Estante Virtual, relizando compras virtuais.
Adorei.
Clica aqui para ver os postos de troca do chamado Programa Nacional de Troca de Livros.

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A Segunda Vez Que Te Conheci, Marcelo Rubens Paiva

_A_SEGUNDA_VEZ_14X21_ARTE.inddSou adepta a muitos tipos de leitura, desde jornalísticas, extensos romances, crônicas e outros. Entretanto, infelizmente, com a rotina que adquirimos em algumas fases de nossas vidas, o hábito da leitura não é “permitido” devido aos nossos horários. Livros incríveis acabam sendo deixados de lado porque outros têm que ser lidos ou porque fazem parte daquele grupo em que a atenção dada à história tem que ser total. Como qualquer outro hábito, não posso simplesmente abandoná-lo e, por isso, a leitura de bons romances porém práticos ou fáceis, como preferirem, é ideal.
A Segunda Vez Que Te Conheci faz parte desse tipo de leitura, que pode ser entendida como aquela que flui naturalmente, em que a página não é longa, apesar do tamanho da letra do livro. Marcelo Rubens Paiva escreve como se realmente estivesse narrando aquilo, mas digo, narrando com o falar.É possível ouvir alguém jogando todas aquelas palavras em seu ouvido. Em poucas horas de leitura, o livro está acabado!
É uma espécie de suspense apaixonante que te intriga sem, necessariamente, ser muito complexo como todas aquelas séries policiais. Isso porque tudo soa muito real, principalmente para quem vive em São Paulo pois as cenas se passam por ruas como Haddock Lobo, Augusta e Avenida Nove de Julho, esta última sendo o meu caminho da roça para a escola. Toda essa veracidade de nomes faz o leitor imaginar tudo com o concreto, com as imagens das ruas que conhecemos.
Vale a pena a leitura que é rápida, indolor e impressionante.

Para interessados, primeiro capítulo em PDF disponível no site da Livraria Cultura.

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Lolita, Vladimir Nabokov

lolitaA ninfeta do dia-a-dia de Humbert Humbert me fascinou tanto quanto a ele, conforme constatamos com suas descrições intrigantes, asquerosas e geniais. A Lolita de Vladimir Nabokov – russo, que deu origem a esse romance inglês, disse-me um amigo meu, é a original. É aquela que tem os dedos sujos de terra, que é meio moleca e que traz na indecência do shorts branco a falta de pudor da infância.
Se fosse filme – sem imaginarmos o já rodados de 1962, de Kubrick, ou de 1997, de Adrian Lyne – imagino um dos melhores cross roads que pode existir.
Dolores, Lo, Lolita… A ninfeta atrevida que provoca. Humbert Humbert um professor francês quarentão que vai pra américa. Há quem diga ser o encontro da américa com a europa, quando esta é sugada pela américa. Li no posfácio escrito pelo autor que isso é quase uma pura bobagem. Segundo ele, o livro vai além disso. Ao mesmo tempo que é apenas um romance, é algo para o qual não há explicação.
Sei que é daqueles livros que se quer devorar. O autor é genial.

* encontrei essa versão da foto, publicada pela Folha de SP, em SP óbvio, e pelo Globo, no Rio, por três reais no Sebo. Ótima qualidade, capa dura.

Ouvindo: Lenine – Jack Soul Brasileiro

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